terça-feira, 13 de abril de 2010

Fernanda Young

Fernanda Maria Young de Carvalho Machado (Niterói, 1 de maio de 1970) é uma escritora, atriz, roteirista e apresentadora de televisão brasileira.

Sua formação literária foi em parte constituída durante a travessia da baía de Guanabara em barcas ou ônibus.[carece de fontes?] Dedicou-se aos livros na busca de aperfeiçoamento, influências e distração. Interrompeu os estudos após a conclusão do ensino fundamental, posteriormente concluindo o médio por meio de um supletivo de seis meses. Frequentou a faculdade de Letras da Universidade Federal Fluminense, sem chegar a se formar. Ainda viria a cursar Jornalismo na Faculdade Hélio Alonso e, depois de mudar-se para São Paulo e iniciar sua carreira de escritora, virar aluna de Rádio & Televisão na FAAP, mas não terminaria nenhum dos cursos. Fernanda teria jurado nunca mais pisar em um campus universitário após as experiências.

Em 1995, foi roteirista do programa televisivo A Comédia da Vida Privada, da Rede Globo. No ano seguinte, Fernanda lançou seu primeiro romance, Vergonha dos Pés, que foi inicialmente ignorado por público e crítica. No ano seguinte, lançou À Sombra de Vossas Asas, que conta a história de amor, obsessão e vingança entre o fotógrafo Rigel (que reaparece no livro Aritmética) e da aspirante-a-top-model Carina.

Os livros de Fernanda conseguiram boa exposição na mídia devido à sua persona peculiar, suas declarações controversas, sua obsessão com cultura pop e seu visual, construído por cabelos geralmente curtos, grandes tatuagens e, por algum tempo, ostensivas pulseiras de baquelite das décadas de 1920 a 1950. Contudo, não conseguiu angariar o respeito de especialistas em literatura, que a consideram um típico fenômeno televisivo sem consistência.

Em 1998 lançou o romance Carta para Alguém Bem Perto, seguido pelo criticado As Pessoas dos Livros (2000). Em 2001, após o lançamento de seu quarto romance, O Efeito Urano, Fernanda retomou a carreira de roteirista de televisão, com Os Normais. O seriado seria exibido durante dois anos na Rede Globo e culminaria em um longa-metragem, lançado em 2003. Fernanda também participaria dos roteiros do quadro Supersincero (2005), no programa Fantástico, e do seriado Minha Nada Mole Vida, em 2006.

Entre 2002 e 2003, Young co-apresentou, ao lado de Rita Lee, Mônica Waldvogel e Marisa Orth, o programa feminino Saia Justa no canal a cabo GNT. Seus próximos livros, o romance Aritmética e a coletânea poética Dor do Amor Romântico, sairiam, respectivamente, em 2004 e 2005. Escreveu uma coluna mensal na revista Claudia. Atualmente apresenta na GNT o programa Irritando Fernanda Young, programa de entrevistas com celebridades.

Estreou no dia 2 de novembro seu mais recente programa, O Sistema, pela rede Globo de Televisão. Aparentemente polêmico, porém divertido, como toques sarcásticos e traços peculiares da escritora, seguindo o estilo de seus programas anteriores.

É casada com o roteirista e escritor Alexandre Machado, com quem teve as gêmeas Cecília Madonna e Estela May. Tem uma filha adotiva, a pequena Catarina Lakshimi, nascida em 10 de novembro de 2008, que depois de poucos dias já morava com os pais.

Fernanda Young posou nua para a edição brasileira da revista Playboy, lançada em novembro de 2009.

Fonte: Wiquipédia

sábado, 10 de abril de 2010

Anita Garibaldi (1821-1849)

Heroína brasileira, nasceu em Morrinhos, SC, então município de Laguna, em 30 de agosto de 1821, filha de Bento Ribeiro de Silva e Maria Antônia de Jesus Antunes. Faleceu na Itália no dia 4 de agosto de 1849. Embora os pais de Anita fossem pobres, deram-lhe excelente educação. Casou-se em Laguna no ano de 1835 com Manuel Duarte de Aguiar. Quando surgiu a Revolução Farroupilha, deixou o seu marido e ligou-se a Giuseppe Garibaldi que a unira ao movimento. Deu o seu primeiro tiro de canhão, na Batalha de Laguna. Devido a oposição dos pais, Garibaldi raptou-a, indo regularizar o casamento em 26 de março de 1842, no Uruguai. Tornou-se uma companheira destemida do esposo, participando em seus combates, lutou pela unificação e libertação de Itália. Mais tarde viu-se sitiada pelas forças legalistas, conseguindo fugir. Nasceu o seu primeiro filho no dia 16 de setembro de 1840. Em 1847 Anita seguiu para a Itália levando seus três filhos. Reuniu-se a Garibaldi pouco depois em Nice. Tomou parte dos combates de Roma; os amotinadores foram obrigados a se retirarem em barcos de pesca, os quais a maior parte caiu em poder dos Austríacos. Porém o que conduzia o casal encalhou numa praia. Anita e Giuseppe com alguns companheiros abrigaram-se numa propriedade rural nas proximidades de Ravena. Anita teve o seu estado sensivelmente agravado pela febre tifóide, durante os combates em Roma, vindo a falecer antes de completar trinta anos de idade. Em sua memória ergueram vários monumentos no Brasil e na Itália. Seu nome de solteira: Ana Maria de Jesus Ribeiro.

Fonte: biografias.net

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Cora Coralina

Assim eu vejo a vida

"A vida tem duas faces:
Positiva e negativa
O passado foi duro
mas deixou o seu legado
Saber viver é a grande sabedoria
Que eu possa dignificar
Minha condição de mulher,
Aceitar suas limitações
E me fazer pedra de segurança
dos valores que vão desmoronando.
Nasci em tempos rudes
Aceitei contradições
lutas e pedras
como lições de vida
e delas me sirvo
Aprendi a viver."


Cora Coralina (Ana Lins do Guimarães Peixoto Brêtas), 20/08/1889 — 10/04/1985, é a grande poetisa do Estado de Goiás. Em 1903 já escrevia poemas sobre seu cotidiano, tendo criado, juntamente com duas amigas, em 1908, o jornal de poemas femininos "A Rosa". Em 1910, seu primeiro conto, "Tragédia na Roça", é publicado no "Anuário Histórico e Geográfico do Estado de Goiás", já com o pseudônimo de Cora Coralina. Em 1911 conhece o advogado divorciado Cantídio Tolentino Brêtas, com quem foge. Vai para Jaboticabal (SP), onde nascem seus seis filhos: Paraguaçu, Enéias, Cantídio, Jacintha, Ísis e Vicência. Seu marido a proíbe de integrar-se à Semana de Arte Moderna, a convite de Monteiro Lobato, em 1922. Em 1928 muda-se para São Paulo (SP). Em 1934, torna-se vendedora de livros da editora José Olimpio que, em 1965, lança seu primeiro livro, "O Poema dos Becos de Goiás e Estórias Mais". Em 1976, é lançado "Meu Livro de Cordel", pela editora Cultura Goiana. Em 1980, Carlos Drummond de Andrade, como era de seu feitio, após ler alguns escritos da autora, manda-lhe uma carta elogiando seu trabalho, a qual, ao ser divulgada, desperta o interesse do público leitor e a faz ficar conhecida em todo o Brasil.

Sintam a admiração do poeta, manifestada em carta dirigida a Cora em 1983:

"Minha querida amiga Cora Coralina: Seu "Vintém de Cobre" é, para mim, moeda de ouro, e de um ouro que não sofre as oscilações do mercado. É poesia das mais diretas e comunicativas que já tenho lido e amado. Que riqueza de experiência humana, que sensibilidade especial e que lirismo identificado com as fontes da vida! Aninha hoje não nos pertence. É patrimônio de nós todos, que nascemos no Brasil e amamos a poesia ( ...)."

Editado pela Universidade Federal de Goiás, em 1983, seu novo livro "Vintém de Cobre - Meias Confissões de Aninha", é muito bem recebido pela crítica e pelos amantes da poesia. Em 1984, torna-se a primeira mulher a receber o Prêmio Juca Pato, como intelectual do ano de 1983. Viveu 96 anos, teve seis filhos, quinze netos e 19 bisnetos, foi doceira e membro efetivo de diversas entidades culturais, tendo recebido o título de doutora "Honoris Causa" pela Universidade Federal de Goiás. No dia 10 de abril de 1985, falece em Goiânia. Seu corpo é velado na Igreja do Rosário, ao lado da Casa Velha da Ponte. "Estórias da Casa Velha da Ponte" é lançado pela Global Editora. Postumamente, foram lançados os livros infantis "Os Meninos Verdes", em 1986, e "A Moeda de Ouro que um Pato Comeu", em 1997, e "O Tesouro da Casa Velha da Ponte", em 1989.


O poema acima, inédito em livro, foi publicado pelo jornal "Folha de São Paulo" — caderno "Folha Ilustrada", edição de 04/07/2001.

Fonte: releituras.com

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Flor é a mãe coragem


Nascida na favela do Jacarezinho, no Rio, Flordelis dos Santos de Souza, 48 anos, tem 50 filhos. Apenas quatro são biológicos. A maioria vem com um histórico desanimador, vítimas de abusos físicos ou sexuais, pais alcoólatras ou drogados, que viviam nas ruas. Os cinco primeiros ela tirou das drogas. Sua história está em “Flordelis – Basta uma palavra para mudar”, de Marco Antônio Ferraz e Anderson Corrêa, exibido no Festival do Rio e agora em cartaz. No elenco, nomes como Reynaldo Gianecchini, Letícia Sabatella, Marcelo Anthony, Fernanda Lima e Cauã Reymond.

Evangélica, também ministra com seu marido uma igreja com quase 1000 membros. Já lançou três CDs e criou o Ifam (Instituto Flordelis de Apoio ao Menor). De uma só vez, 37 pessoas, entre elas, 14 bebês, foram para sua casa. Eles dormiam na Central do Brasil quando passou um carro metralhando o grupo. Três filhos, como faz questão de chamar todos eles, já morreram, vítimas do HIV.

"Minha filha, um dia antes de morrer, num momento que ela estava já terminal, eu fui ao hospital, correndo, às pressas, quando eu cheguei lá, fiz carinho nela, ela me pediu para cantar. Eu cantei para ela. Ela não estava falando mais e conseguiu gritar. Deu um grito, depois que já estava sem força para falar, e disse: 'Mãe, não esquece que eu te amo'. Ela conseguiu gritar três vezes que me amava. Eu fiquei com essa imagem da minha filha, dizendo que me amava. Eu sei que eu fiz o meu papel como mãe, porque ela morreu me amando", avalia Flordelis."

Fonte: www.revistaafro.com.br

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Dalva de Oliveira


Sua vida poderia ser um desses folhetins baratos, daqueles que se folheiam e depois são atirados na lata de lixo mais próxima. Qual o quê! É um romanceiro, piegas às vezes, mas quase sempre denso, e nunca monótono.

Nasceu Vicentina Paula de Oliveira, nome banal para quem iria fazer o Brasil inteiro atirar-se a seus pés, com sua voz filetada a ouro, estilhaçadora de cristais, predestinada a cantar sob uma eterna luz de um abajur lilás.

Foi num 5 de maio de 1917 que Dalva de Oliveira veio ao mundo, na cidade paulista de Rio Claro. Filha da portuguesa Alice do Espírito Santo de Oliveira e do mulato festeiro Mário de Oliveira, o Mário Carioca, marceneiro na Companhia Paulista de Trens e tocador de saxofone nas horas vagas, fazedor de filhas: quatro. Sua vidinha de menina pobre poderia se contada em vinte ou duzentas laudas, sem que ninguém confiasse numa vírgula que fosse relatado. A receita que lhe foi dada pelo destino, convenhamos, era amarga: foi ser faxineira, costureira - tudo bem, profissões dignas. Mas uma quase cegueira? logo naqueles olhos verdes da mulata, tão cismadores e fatais?

Passagem por orfanato, infância com poucos brinquedos, mas, felizmente, com muita música. A vida lhe reservaria algumas tragédias. Mas podemos fotografá-la em muitos momentos: cantando, por exemplo, no alto de um banquinho, acompanhada pelo pai, e depois sob a lona de circos, já adulta. Nada fazia prever que aqueles olhos verdes iriam cegar multidões. Fez-se cantora por vocação, e quase nunca feliz por desíginio. Juntou-se à dupla Preto e Branco, para depois formar o célebre Trio de Ouro, logo sintonizado por Villa-Lobos que, pelos quatro cantos, espalhava que ali estava a maior cantora do Brasil. O branco da antiga dupla, é bom que se esclareça, era Herivelto Martins. Um dos maiores compositores brasileiros de todo os tempos. Com que, aliás, se casou e teve dois filhos, Pery e Ubiratan. Pery herdaria a voz e os olhos da mãe, e o imenso talento do pai. É bom não esquecer que o negro da dupla era Nilo Chagas, que, igual a Ismael Silva, era conhecido também como um negro de alma branca - sem atinar para a carga pejorativa desse aparente elogio.

A ruptura do casamento de Herivelto e Dalva foi manchete escandalosa de todos os jornais e provocou a mais polêmica das polêmicas musicais já acontecidas no Brasil. Desfeito o Trio de Ouro em 1949, Dalva assume sua carreira solo. Se Francisco Alves era o Rei da Voz, faltava uma rainha para o trono. Dalva, claro. As prensas da Odeon eram insuficientes para atender aos sucessos que jorravam de sua voz, de agudos fulminantes. Enquanto isso, Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim escrevia alguns arranjos para ela. A partir de 1951, praticamente não se ouvia outra voz nas paradas de sucesso - apesar das estrelíssimas Linda e Dircinha Baptista, do surgimento de Emilinha Borba e Marlene que, aliás, lhe entregaria o cetro e o trono de Rainha do Rádio, e que seria um dia entregue a uma outra mulata, igual a Dalva, modesta, chamada Ângela Maria.

Dalva trilhava a escola de Aracy Cortes, Ângela agora seguia o rastro de Dalva. O casarão na Rua Albano 142, em Jacarepaguá, conhece em 52 um novo habitante, o argentino Tito Climent, que passa a administrar sua vida, fazendo-a retirar-se do Brasil por um tempo, sob os olhos suspeitos dos amigos da Rainha.

Casou-se com ele numa igreja de Montmartre. Foi levada a Londres para gravar com a famosa Orquestra de Roberto Inglez e, de lambujem, soltar seus agudos diante da Rainha da Inglaterra. Na Argentina sua voz juntou-se aos bandoneóns de Francisco Canaro e seu grupo de tangos. Um outro amor surgiria, ela já com 47 anots, Nuno com 19.

Amores, desditas, tragédias, quem não as teve? Dalva sabia como desatinar sua vida, arebanhar inquietações, jogar seu barco na tempestade.

A imprensa continuava monitorando sua vida e seu copo, e um fato novo novamente a coloca nas manchetes dos jornais: um desastre pavoroso em seu carro deixa, em agosto de 1965, um rastro de mortos no caminho, e aquela mulher de baixa estatura, cabelos agora alourados, vê-se atirada, agonizante, num hospital. Todo o país fica com a respiração suspensa, uma pergunta sufocando as gargantas: voltaria a cantar? Escapou e, com seu novo e jovem amor, voltou para "seu Shangri-lá" na rua Albano, que sofreria uma reforma inacabável. Do acidente sobrou uma cicatriz, rasgando-lhe o rosto. os tempos eram outros, uma nova geração surgia e sobrou pouco espaço para aquela voz embargada de lágrimas e soluços, com o sentimento transbordando à flor dos ossos.

Poucas cantoras atingiram uma escala de empatia com o público como Dalva. Com a bebida pontuando sua vida, ela fez-se refletir no espelho das canções que, de alguma forma, rasuravam suas desditas. Mas sempre reverenciando seu público, as mãos cruzadas sobre o peito, num discurso sincero: "É como sempre digo, eu não tenho fans, tenho amigos. Obrigada". Rica às vezes, infeliz quase sempre, andando de ônibus no final da vida - ela se autobiografa modestamente em seu folhetim, ocultando ter sido quem realmente foi: não somente Rainha, mas Porta-Voz de todos aqueles que ficaram à margem da vida.

Vida que ela a deixou às 17:15 horas de um 31 de agosto de 1972, espalhando um rastro de luz e um fio de voz que, até hoje, se esparrama qual um prisma luminoso sobre todas as vozes que, de alguma forma, foram embevedar-se em seu coração.

Fonte: www.mpbnet.com.br

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

A Mulher do Século 20


Com estilo e elegância, Gabrielle "Coco" Chanel revolucionou a década de 20, libertando a mulher dos trajes desconfortáveis e rígidos do final do século 19. Um verdadeiro mito, Chanel reproduziu sua própria imagem, a mulher do século 20, independente, bem-sucedida, com personalidade e estilo.

Símbolo de status

A bolsa com alças de corrente dourada, o colar de pérolas, o tailleur e o vestido preto são os símbolos de elegância e status que marcaram para sempre a história da moda. Mas foi o seu perfume, o Chanel nº 5 - tido como o mais vendido no mundo -, que a tornou milionária.

O perfume foi criado em 1921 por Ernest Beaux a pedido de Gabrielle Chanel, que sugeriu: "Um perfume de mulher com cheiro de mulher". Dentro de um frasco art déco - que foi incorporado à coleção permanente do Museu de Arte Moderna de Nova York em 1959 -, o Chanel nº 5 foi o primeiro perfume sintético a levar o nome de um estilista.

Frases:

"Eu criei um estilo para um mundo inteiro.
Vê-se em todas as lojas "estilo Chanel". Não há nada que se assemelhe. Sou escrava do meu estilo. Um estilo não sai da moda; Chanel não sai da moda."

"Os homens que querem se fazer notar pelas roupas são uns cretinos. As mulheres podem sobreviver a quase todas as formas de ridículo; um homem ridículo está perdido, a menos que seja gênio."

"Simplicidade é a chave da verdadeira elegancia"

"Sempre remova, nunca adicione"

"O suceso é alcançado por aqueles que sabem que falhar é inevitavel"

Apesar de orfã e pobre, tornou-se uma das primeiras self-made woman do mundo moderno.

Fonte: almanaque.folha.uol.com.br

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Clarice por Clarice


Ao mesmo tempo que ousava desvelar as profundezas de sua alma em seus escritos, Clarice Lispector costumava evitar declarações excessivamente íntimas nas entrevistas que concedia, tendo afirmado mais de uma vez que jamais escreveria uma autobiografia. Contudo, nas crônicas que publicou no Jornal do Brasil entre 1967 e 1973, deixou escapar de tempos em tempos confissões que, devidamente pinçadas, permitem compor um auto-retrato bastante acurado, ainda que parcial. Isto porque Clarice por inteiro só os verdadeiramente íntimos conheceram e, ainda assim, com detalhes ciosamente protegidos por zonas de sombra. A verdade é que a escritora, que reconhecia com espanto ser um mistério para si mesma, continuará sendo um mistério para seus admiradores, ainda que os textos confessionais aqui coligidos possibilitem reveladores vislumbres de sua densa personalidade.

A descoberta do amor

“Quando criança, e depois adolescente, fui precoce em muitas coisas. Em sentir um ambiente, por exemplo, em apreender a atmosfera íntima de uma pessoa. Por outro lado, longe de precoce, estava em incrível atraso em relação a outras coisas importantes. Continuo, aliás, atrasada em muitos terrenos. Nada posso fazer: parece que há em mim um lado infantil que não cresce jamais.
Até mais que treze anos, por exemplo, eu estava em atraso quanto ao que os americanos chamam de fatos da vida. Essa expressão se refere à relação profunda de amor entre um homem e uma mulher, da qual nascem os filhos.  Depois, com o decorrer de mais tempo, em vez de me sentir escandalizada pelo modo como uma mulher e um homem se unem, passei a achar esse modo de uma grande perfeição. E também de grande delicadeza. Já então eu me transformara numa mocinha alta, pensativa, rebelde, tudo misturado a bastante selvageria e muita timidez.
Antes de me reconciliar com o processo da vida, no entanto, sofri muito, o que poderia ter sido evitado se um adulto responsável se tivesse encarregado de me contar como era o amor.  Porque o mais surpreendente é que, mesmo depois de saber de tudo, o mistério continuou intacto. Embora eu saiba que de uma planta brota uma flor, continuo surpreendida com os caminhos secretos da natureza. E se continuo até hoje com pudor não é porque ache vergonhoso, é por pudor apenas feminino.
Pois juro que a vida é bonita.”

Temperamento impulsivo

“Sou o que se chama de pessoa impulsiva. Como descrever? Acho que assim: vem-me uma idéia ou um sentimento e eu, em vez de refletir sobre o que me veio, ajo quase que imediatamente. O resultado tem sido meio a meio: às vezes acontece que agi sob uma intuição dessas que não falham, às vezes erro completamente, o que prova que não se tratava de intuição, mas de simples infantilidade.
Trata-se de saber se devo prosseguir nos meus impulsos. E até que ponto posso controlá-los.  Deverei continuar a acertar e a errar, aceitando os resultados resignadamente? Ou devo lutar e tornar-me uma pessoa mais adulta? E também tenho medo de tornar-me adulta demais: eu perderia um dos prazeres do que é um jogo infantil, do que tantas vezes é uma alegria pura. Vou pensar no assunto. E certamente o resultado ainda virá sob a forma de um impulso. Não sou madura bastante ainda. Ou nunca serei.”

Lúcida em excesso

“Estou sentindo uma clareza tão grande que me anula como pessoa atual e comum: é uma lucidez vazia, como explicar? assim como um cálculo matemático perfeito do qual, no entanto, não se precise. Estou por assim dizer vendo claramente o vazio. E nem entendo aquilo que entendo: pois estou infinitamente maior do que eu mesma, e não me alcanço. Além do quê: que faço dessa lucidez? Sei também que esta minha lucidez pode-se tornar o inferno humano — já me aconteceu antes. Pois sei que — em termos de nossa diária e permanente acomodação resignada à irrealidade — essa clareza de realidade é um risco. Apagai, pois, minha flama, Deus, porque ela não me serve para viver os dias. Ajudai-me a de novo consistir dos modos possíveis. Eu consisto, eu consisto, amém.”.

Ideal de vida

“Um nome para o que eu sou, importa muito pouco. Importa o que eu gostaria de ser.
O que eu gostaria de ser era uma lutadora. Quero dizer, uma pessoa que luta pelo bem dos outros. Isso desde pequena eu quis. Por que foi o destino me levando a escrever o que já escrevi, em vez de também desenvolver em mim a qualidade de lutadora que eu tinha? Em pequena, minha família por brincadeira chamava-me de ‘a protetora dos animais’. Porque bastava acusarem uma pessoa para eu imediatamente defendê-la.
 No entanto, o que terminei sendo, e tão cedo? Terminei sendo uma pessoa que procura o que profundamente se sente e usa a palavra que o exprima.
É pouco, é muito pouco.”

Escritora, sim; intelectual, não

“Outra coisa que não parece ser entendida pelos outros é quando me chamam de intelectual e eu digo que não sou. De novo, não se trata de modéstia e sim de uma realidade que nem de longe me fere. Ser intelectual é usar sobretudo a inteligência, o que eu não faço: uso é a intuição, o instinto. Ser intelectual é também ter cultura, e eu sou tão má leitora que agora já sem pudor, digo que não tenho mesmo cultura. Nem sequer li as obras importantes da humanidade.
[...] Literata também não sou porque não tornei o fato de escrever livros ‘uma profissão’, nem uma ‘carreira’. Escrevi-os só quando espontaneamente me vieram, e só quando eu realmente quis. Sou uma amadora?
O que sou então? Sou uma pessoa que tem um coração que por vezes percebe, sou uma pessoa que pretendeu pôr em palavras um mundo ininteligível e um mundo impalpável. Sobretudo uma pessoa cujo coração bate de alegria levíssima quando consegue em uma frase dizer alguma coisa sobre a vida humana ou animal.”

A certeza do divino

“Através de meus graves erros — que um dia eu talvez os possa mencionar sem me vangloriar deles — é que cheguei a poder amar. Até esta glorificação: eu amo o Nada. A consciência de minha permanente queda me leva ao amor do Nada. E desta queda é que começo a fazer minha vida. Com pedras ruins levanto o horror, e com horror eu amo. Não sei o que fazer de mim, já nascida, senão isto: Tu, Deus, que eu amo como quem cai no nada.”

Viver e escrever

“Quando comecei a escrever, que desejava eu atingir? Queria escrever alguma coisa que fosse tranqüila e sem modas, alguma coisa como a lembrança de um alto monumento que parece mais alto porque é lembrança. Mas queria, de passagem, ter realmente tocado no monumento. Sinceramente não sei o que simbolizava para mim a palavra monumento. E terminei escrevendo coisas inteiramente diferentes.”
“Não sei mais escrever, perdi o jeito. Mas já vi muita coisa no mundo. Uma delas, e não das menos dolorosas, é ter visto bocas se abrirem para dizer ou talvez apenas balbuciar, e simplesmente não conseguirem. Então eu quereria às vezes dizer o que elas não puderam falar. Não sei mais escrever, porém o fato literário tornou-se aos poucos tão desimportante para mim que não saber escrever talvez seja exatamente o que me salvará da literatura.
O que é que se tornou importante para mim? No entanto, o que quer que seja, é através da literatura que poderá talvez se manifestar.”
“Até hoje eu por assim dizer não sabia que se pode não escrever. Gradualmente, gradualmente até que de repente a descoberta tímida: quem sabe, também eu já poderia não escrever. Como é infinitamente mais ambicioso. É quase inalcançável”.

A importância da maternidade

“Há três coisas para as quais eu nasci e para as quais eu dou minha vida. Nasci para amar os outros, nasci para escrever, e nasci para criar meus filhos. O ‘amar os outros’ é tão vasto que inclui até perdão para mim mesma, com o que sobra. As três coisas são tão importantes que minha vida é curta para tanto. Tenho que me apressar, o tempo urge. Não posso perder um minuto do tempo que faz minha vida. Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca.”

Viver plenamente

“Eu disse a uma amiga:
— A vida sempre superexigiu de mim.
Ela disse:
— Mas lembre-se de que você também superexige da vida.
Sim.”

"Escrevi livros que fizeram muitas pessoas me amar de longe"

Fonte: www.claricelispector.com.br